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Da redação ao pódio: Como Danielle Chevrand usa a liderança no Va’a para moldar novos talentos

Nascida e criada em Niterói, a cidade fluminense que se consolidou como a capital e o principal polo de Va’a (o esporte milenar da canoa havaiana) no Brasil, Danielle Chevrand construiu uma trajetória pouco comum no universo das águas. Formada em jornalismo e com passagens marcantes por grandes redações esportivas e na gestão de comunicação de projetos olímpicos, Danielle conheceu o Va’a apenas em 2017 — transformando rapidamente uma remada experimental em um novo propósito de vida.

Ao lado do companheiro Rodrigo Rodrigues, atleta de elite e um dos técnicos mais estudados da modalidade no país, fundou a Fusão Va’a, clube que se tornou a maior referência nacional em excelência técnica e na formação de atletas de base. Entre treinos, títulos internacionais e a liderança de projetos voltados para jovens promessas, Danielle hoje divide seu tempo entre a gestão esportiva e o desafio de desconectar a nova geração das telas para aproximá-la do oceano.

Danielle, para os leitores que ainda não conhecem sua trajetória, você pode se apresentar? Conte um pouco sobre sua história no esporte, de onde você é no Brasil e quais foram algumas das suas principais conquistas dentro e fora do va’a.

Meu nome é Danielle Chevrand, sou jornalista formada pela PUC-Rio em 2002, passei por algumas redações de jornais, como Jornal do Brasil e Diário LANCE!, trabalhei com assessoria de imprensa, fiz parte da equipe de comunicação da Petrobras (na área de patrocínio esportivo trabalhando com esportes olímpicos e Fórmula 1, e também com patrocínio cultural e responsabilidade sócio-ambiental) e em fevereiro de 2017 conheci a canoa havaiana. Comecei como a maioria das pessoas começa, uma amiga me chamou pra fazer uma remada experimental e eu fui.

Sou nascida e criada em Niterói, que se tornou um pólo importante para a prática de canoa havaiana aqui no Brasil. Comecei a fazer aulas de OC1 ainda no mesmo ano com o Rodrigo Rodrigues, que viria a se tornar meu companheiro e sócio no Fusão Va’a. Juntos, fundamos o Fusão Va’a em dezembro de 2017. Não tinha a menor pretensão de trabalhar com isso, mas surgiu a oportunidade e abraçamos. Foi uma mudança grande de trajetória, saí da comunicação (continuei fazendo alguns freelas na minha área), mas a canoa se tornou meu principal empreendimento.

Desde então venho treinando para participar de competições tanto de canoa individual como coletiva. Quando o clube começou, eu cuidava mais da parte administrativa, mas, ao longo do percurso, passei a ajudar também no operacional, principalmente na formação de novas remadoras (nossas equipes estreantes e jovens talentos). É muito gratificante plantar as sementinhas e depois colher tantos frutos. Desde 2022, nossas equipes estreantes passaram a ganhar todos os campeonatos estaduais e ganhamos o Brasileiro em 2022. Também costumo competir com a nossa equipe mista open, que ganhou inúmeras provas nacionais e internacionais. Em 2022 fomos pro Pan-Americano do Chile, em Coquimbo, e a nossa mista open foi campeã pan-americana. Nos dois anos seguintes, fomos vice-campeões no Pan.

PRINCIPAIS TÍTULOS (Nota do editor: entre muitos outros)

Campeã pan-americana na categoria OC6 open mista com a equipe Fusão Va’a em Coquimbo (CHI) em 2022

  • Tricampeã brasileira de longa distância com a equipe OC6 open mista do Fusão Va’a – 2022, 2024 e 2025
  • Campeã brasileira de longa distância na categoria OC6 40+ feminina com a equipe Vênus Va’a (2023)
  • Campeã da categoria OC1 40+ do Molokabra 2022 – Ceará
  • Campeã brasileira de longa distância na categoria OC1 40+ em 2021, em Ubatuba (SP)
  • Campeã brasileira de longa distância na categoria OC2 40+ com Vanessa Dezerto – 2022 (Niterói)
  • Bicampeã brasileira como leme da equipe estreante feminina do Fusão Va’a no Brasileiro de Longa Distância – 2022 e 2023
  • Bicampeã brasileira como leme da equipe estreante feminina do Fusão Va’a no Brasileiro de Sprint nas distâncias de 500m e 1.000m – 2022 e 2023
  • Campeã estadual de longa distância com a equipe open feminina do Fusão Va’a – 2025
    Vice-campeã do Pan-Americano com a equipe OC6 open mista do Fusão Va’a – 2023 (Vitória) e 2024 (Niterói)
  • Bronze na categoria 40+ feminina com a equipe Vênus no Pan-Americano de Va’a 2023 – Vitória

PRINCIPAIS RESULTADOS COMO TREINADORA

  • Prata com a equipe feminina Jr 19 do Brasil no Mundial de Longa Distância – 2025 em Niterói (medalha inédita para o Brasil)
  • 4º colocação com a atleta Nina Peres no Mundial de Longa Distância – 2025 em Niterói
  • Ouro com a atleta Nina Peres nas categorias Jr 19 de OC1 e V1 no Brasileiro de Longa Distância em Salvador – 2025
  • Ouro com a equipe Jr 19 feminina Fusão Va’a no Brasileiro de Longa Distância – Ilhabela – 2025
  • Prata com a atleta Nina Peres na categoria V1 open e ouro na categoria V1 Jr 19 do Brasileiro de Sprint – Brasília-2026

A Fusão Va’a se tornou um dos maiores clubes de canoa havaiana de Niterói. Qual é a filosofia por trás do clube e quais são os diferentes papéis que você exerce no dia a dia da Fusão?

Como clube, nosso principal diferencial é a excelência no ensino da técnica da remada. Para nós, quanto mais harmônica, padronizada e eficiente for a técnica, mais prazerosa será a remada. E isso se reflete no dia a dia, nas remadas longas e também nas competições. Para chegar nesse padrão, houve muito estudo e aprendizado. Além de ter dedicado muitas horas pesquisando a remada dos melhores atletas do mundo, Rodrigo passou quase um mês treinando de forma intensiva com o técnico da Shell Va’a, David Tepava, no fim de 2024 em Curitiba, graças a um intercâmbio promovido pela Passaúna Composites, patrocinadora do Time Mirage He’e Nalu. E foi uma super escola poder aprender com o melhor técnico do mundo na atualidade. Ao longo dos anos Rodrigo também desenvolveu uma metodologia de trabalho que inclui educativos e treinos técnicos para aprimorar a remada de todos os nossos atletas, competidores ou não. O nosso propósito como clube é ter os remadores mais felizes

Além de cuidar da parte administrativa do clube, também gosto de atuar no operacional treinando as equipes femininas e as nossas atletas, e também cuido com muito carinho da parte de relacionamento com os clientes, dos eventos, da comercialização de produtos com a nossa marca, gestão das nossas redes sociais, campanhas de marketing, entre outras atribuições.

Antes de se dedicar integralmente ao va’a, você trabalhou como jornalista esportiva. De que forma essa experiência ajudou na divulgação do esporte, na comunicação com atletas e na aproximação de novas pessoas à comunidade do va’a?

Penso que todas as experiências profissionais ao longo da vida nos ajudam na nossa jornada. O fato de eu ter escrito muitas matérias jornalísticas sobre todos os esportes me ajuda muito na hora de divulgar os resultados do clube, de redigir os nossos posicionamentos, e de elaborar nossos planos de marketing, projetos de patrocínio e sociais, e planejamentos estratégicos. Além disso, as experiências que tive como chefe na redação hoje somam bastante quando me vejo na função de líder das equipes de competição. Liderar exige muito jogo de cintura, e acreditamos na liderança que inspira pelo exemplo. Uma das funções mais difíceis para nós é manter a harmonia dentro das equipes e os nossos atletas motivados. Aprendemos todos os dias. Amamos receber novos praticantes também. Sempre nos reunimos ao final das remadas e gosto de dizer que o Fusão é que nem coração de mãe: sempre cabe mais um. Pensamos que ainda temos milhares de praticantes hoje sentados no sofá, ou no celular, e para os quais podemos oferecer saúde e qualidade de vida!

Sabemos, através do trabalho desenvolvido com jovens talentos como Nina Peres, que você tem um forte compromisso com a formação da nova geração. Quantas crianças e adolescentes treinam atualmente na Fusão Va’a? Existem programas específicos voltados para os jovens, separados dos treinamentos adultos?

Atualmente temos alguns jovens treinando com a gente sim, mas ainda poucos diante do universo de remadores jovens que podemos atrair. Não é tão simples tirar essa molecada da frente das telas dos smartphones e dos computadores. Estamos em fase de implementação de um programa de formação de novos remadores, em parceria com a fábrica de canoas Evolution, por meio do projeto Incentiva’a. A ideia é atrair jovens entre 14 e 17 anos para o esporte usando os jovens campeões, como Nina, como referência. Acreditamos na proposta de um trabalho lúdico em que a canoa não seja uma obrigação e sim uma brincadeira divertida, e assim poderemos garimpar esses novos talentos. Trabalhar com jovens pra mim é uma experiência bem desafiadora e gratificante. No começo chegam tímidos, não dão muito assunto, e temos que ir conquistando aos poucos a confiança e a atenção deles. No geral, eles têm muita facilidade de aprender e de se desenvolver, e sempre são muito gratos por cada conquista, então é muito prazeroso trabalhar com jovens.

Além da parte esportiva, que tipo de transformação você costuma perceber nos jovens depois que começam a praticar va’a? O esporte muda aspectos como disciplina, confiança ou relação com o mar?

O esporte muda tudo dentro da gente, mas principalmente a auto-estima, não só dos jovens. Percebemos isso em qualquer remador que inicia num novo esporte e se vê diante de um universo de revoluções pessoais. A questão do autocuidado que o esporte traz, a disciplina, a responsabilidade de representar um clube nos campeonatos e levar a bandeira do Brasil em provas internacionais. Vemos uma verdadeira transformação, o amadurecimento e um crescimento pessoal muito bonito, sem perder, como disse anteriormente, a capacidade de se divertir e curtir o esporte de forma lúdica. Digo isso porque para os jovens o esporte também precisa vir com leveza.

O que você diria para jovens atletas que têm curiosidade sobre a canoa havaiana, mas ainda sentem insegurança ou receio de experimentar o esporte pela primeira vez?

Eu diria: venha fazer uma aula experimental. Às vezes, pra começar, eles querem trazer um amigo e eu digo: traga o seu amigo. Tem que ser um momento bom, prazeroso, leve, sem pressão. Eles precisam se sentir à vontade no ambiente da canoa, e, para isso, também é importante ter uma equipe de instrutores que transmita essa leveza. Quanto mais divertida for a experiência, melhor.

E para famílias ou jovens interessados em entrar para a Fusão Va’a, como funciona a questão dos custos? A mensalidade inclui acesso aos equipamentos, como canoas e remos?

A nossa mensalidade inclui tudo, só precisa vir! Os remos e coletes que temos pra emprestar são simples, então, se a pessoa quiser se aprimorar no esporte, mais pra frente sentirá a necessidade de ter o seu próprio remo e colete. Mas, pra começar, eu recomendo só vir, de preferência usando uma roupa confortável e proteção solar. Os custos são parecidos com o de uma academia. Dependendo da vocação e da dedicação do jovem-atleta, oferecemos bolsa para que possa praticar o esporte sem custo, além de todos os equipamentos. Tentamos oferecer todo o suporte, mas quem vai fazer o milagre acontecer é o próprio atleta por meio do treinamento!

E para terminar, para os jovens que sonham em competir em alto nível no futuro, quais são os conselhos mais importantes em relação a treinamento e performance? Que hábitos e mentalidade você acredita que fazem diferença na formação de um atleta forte e bem-sucedido?

Em primeiro lugar eu diria que o mais importante é querer, em todos os sentidos. É querer estar ali, treinando, é querer competir, evoluir. Quando a pessoa quer muito praticar aquele esporte, o resultado vem como consequência. Com o passar do tempo, esse ‘querer’ vira disciplina. O atleta se acostuma com a rotina e passa a curtir as etapas do processo. Quando vemos a evolução em cada treino, as médias subindo no relógio, vai dando ainda mais vontade de treinar e assim vão nascendo os nossos futuros campeões.

A mentalidade de um atleta campeão passa por acreditar em si, ter garra para entender que haverá derrotas no caminho, mas que o vencedor de hoje é aquele que já perdeu inúmeras vezes, mas nunca desistiu. Ser persistente é mais importante do que ser talentoso porque a persistência vence o talento. E um talento sem persistência não é nada.

O esporte transforma a forma como vemos o mundo de inúmeros jeitos, e ter uma mente vencedora é uma delas. Os jovens têm uma coisa muito bonita pra mim, que é uma capacidade infinita de sonhar, eles conquistam tudo o que querem, mesmo que, em alguns instantes, sequer tenham a dimensão daquele feito. Quando vi a equipe feminina Jr 19 do Brasil ultrapassando a equipe do Taiti nos quilômetros finais da prova no Mundial de Longa Distância (Nota do Editor: VA’A RIO 2025 IVF DISTANCE WORLD CHAMPIONSHIPS) em agosto do ano passado (2025), em Niterói, para conquistar a prata, vi algo que acreditava que não seria possível tão cedo na história do nosso esporte (lembrando que a canoa chegou ao Brasil no ano 2000 e que o Taiti é o berço do va’a). E isso só foi possível porque as nossas jovens atletas não deixaram de acreditar um segundo sequer que era possível. E eu tenho muito orgulho de todas elas e dessa jornada que marcou pra sempre a história do nosso esporte.

Follow Danielle Chevrand on Instagram:
www.instagram.com/danichevrand/

 

About the Author

Glênia Pinheiro

Glênia Pinheiro is an engineer with a deep passion for sports and ocean life. Originally from Fortaleza, Brazil’s downwind paradise, she fell in love with outrigger canoeing, with or without a rudder. Now based in France, she embraces a dream lifestyle shaped by adventure, endurance, and a strong connection to the sea.

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